Palavras que se confundem em português: há ou à, houve ou ouve, concelho ou conselho e mais
As confusões mais comuns em português de Portugal resolvem-se com um teste simples: trocar a palavra por outra. «Há» é o verbo haver (troque por «existe» ou «faz»); «à» é a mais o artigo (troque por «ao»); «a» é preposição ou artigo. «Houve» é de haver e «ouve» é de ouvir. Neste guia cada par traz uma regra de uma linha, exemplos de Portugal e um quiz final.
Resposta curta
A maioria das confusões entre palavras parecidas desfaz-se com um teste de substituição. Para «há», «à» e «a»: se pode trocar por «existe» ou «faz», escreve-se há; se pode trocar por «ao» (masculino), escreve-se à; nos outros casos, a. Para «houve» e «ouve»: se a frase fala de existir ou acontecer, é houve (de haver); se fala de escutar, é ouve (de ouvir).
Este guia reúne os pares que mais baralham quem escreve em Portugal, com a regra numa linha, um exemplo local e, quando existe, a ligação à entrada correspondente das dúvidas ortográficas. A norma seguida é o Acordo Ortográfico de 1990, em vigor em Portugal desde 2009 (com transição até 2015), e as formas de Portugal (facto, contacto, receção). Em caso de dúvida, consulte o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ou o Vocabulário Ortográfico do Portal da Língua Portuguesa.
Há, à ou a?
Esta é a confusão número um. São três palavras com funções diferentes.
| Palavra | O que é | Teste | Exemplo |
|---|---|---|---|
| há | verbo haver (existir; tempo decorrido) | troque por «existe» ou «faz» | «Há três anos que vivo no Porto.» |
| à | preposição a + artigo a | troque por «ao» | «Fui à biblioteca.» (Fui ao museu.) |
| a | preposição, artigo ou pronome | os outros casos | «Vou a Coimbra.» / «Vi-a ontem.» |
Há e a para falar de tempo
- Passado: há (= faz): «Cheguei há dez minutos.»
- Futuro: daqui a (nunca «daqui há»): «Chego daqui a dez minutos.»
- Distância: a: «A estação fica a dois quilómetros.»
Há bocado e daqui a bocado
Na linguagem corrente de Portugal, «há bocado» significa «há pouco tempo»: «Falámos há bocado.» Escreve-se com há (verbo haver), nunca «à bocado». O contrário escreve-se «daqui a bocado».
Acerca de, a cerca de, há cerca de
- Acerca de = sobre: «Escrevi um texto acerca de Camões.»
- Há cerca de = faz aproximadamente: «Mudei-me há cerca de dois anos.»
- A cerca de = distância aproximada: «Vivo a cerca de três quilómetros do centro.»
Houve ou ouve? E por que razão «houveram» é um erro
Houve é o pretérito de haver (existir, acontecer); ouve é o presente de ouvir. Exemplo: «Ontem houve um concerto e toda a gente ouve a música da rua.»
O erro clássico é dizer «houveram»: com o sentido de existir ou ocorrer, haver é impessoal e fica sempre no singular: «Houve dois acidentes», «Havia muitos alunos», «Vai haver exames.» Veja a entrada houve ou houveram.
Pares do mesmo som, sentidos diferentes
Cada linha traz a regra e um exemplo. Clique no par quando houver entrada nas dúvidas ortográficas.
Cumprimento ou comprimento
Cumprimento vem de cumprir (e é a saudação: «os meus cumprimentos»); comprimento é a extensão. Teste: troque por «extensão». Veja cumprimento ou comprimento. Exemplo: «O cumprimento do prazo é obrigatório; o comprimento da mesa é de dois metros.»
Descrição ou discrição
Descrição é o ato de descrever; discrição é a reserva de quem é discreto. Veja descrição ou discrição. Exemplo: «Pediram-me uma descrição do espaço e total discrição.»
Com certeza e a escrita «concerteza»
Escreve-se em duas palavras: com certeza. «Concerteza» não existe. Veja com certeza ou concerteza.
Coser ou cozer
Coser (com s) é costurar; cozer (com z) é cozinhar. Veja coser ou cozer. Exemplo: «A avó cose o botão enquanto o pão coze.»
Perda ou perca
Perda é o nome (a perda de dados). Perca é forma do verbo perder («não perca o comboio»). Veja perda ou perca.
Concelho ou conselho
Concelho é uma divisão administrativa (município): «O concelho de Sintra». Conselho é um aviso ou um órgão colegial: «um bom conselho», «o Conselho de Ministros». Teste: se pode trocar por «município», escreve-se concelho; se pode trocar por «aviso» ou «órgão», escreve-se conselho.
Sessão, secção e cessão
- Sessão: reunião ou período de tempo: «sessão de cinema», «sessão solene».
- Secção: divisão ou parte de um todo: «secção de desporto do jornal».
- Cessão: ato de ceder: «cessão de direitos», «cessão de créditos».
Em Portugal escreve-se secção com c, porque a consoante se pronuncia; a forma «seção» é a do Brasil.
Mal ou mau
Mal opõe-se a bem (advérbio ou nome): «Dormi mal.» Mau opõe-se a bom (adjetivo): «Um mau dia.» Teste: troque por bem ou bom.
Mas ou mais
Mas é a conjunção adversativa (equivale a «porém»); mais indica quantidade (oposto de «menos»). «Quero mais, mas não posso.»
Traz ou trás
Traz é o verbo trazer («Ela traz o livro»); trás é o advérbio (atrás, para trás). Exemplo: «Fica atrás da porta, para trás do sofá.»
Porque, porquê e por que
- Porque (junto, sem acento): resposta ou ligação causal: «Não fui, porque chovia.»
- Porquê (junto, com acento): no fim da frase ou como nome: «Não foi. Porquê?», «o porquê da decisão».
- Por que (separado): em perguntas como «Por que razão…?» ou quando equivale a «pelo qual»: «A rua por que passei.»
Tem e têm, vem e vêm
Na 3.ª pessoa do singular (ele) não há acento: tem, vem. No plural (eles) há acento circunflexo: têm, vêm. Já veem, leem, creem, deem perderam o circunflexo com o Acordo. Exemplo: «Ele vem de comboio; elas vêm de autocarro.»
Infligir ou infringir
Infligir é aplicar (pena, derrota). Infringir é violar (uma regra, a lei). «O árbitro infligiu uma sanção a quem infringiu o regulamento.»
Emigrar ou imigrar
Emigrar é sair do país; imigrar é entrar noutro para viver. A mesma pessoa é emigrante para o país de origem e imigrante para o de acolhimento.
Ao encontro de ou de encontro a
Ao encontro de = em direção a alguém, para se aproximar: «Fui ao encontro do meu irmão.» De encontro a = contra, em choque: «O carro foi de encontro ao muro.»
Tráfego ou tráfico
Tráfego é movimento de veículos ou dados; tráfico é comércio ilegal. «O tráfego da A1 estava intenso.»
Acento ou assento
Acento é o sinal gráfico ou a intensidade de uma sílaba; assento é o lugar onde se senta. «O assento do comboio e o acento agudo.»
Descriminar ou discriminar
Descriminar é tirar o carácter de crime; discriminar é separar, tratar de forma desigual (ou distinguir). Em textos sobre direitos, confirme sempre o sentido.
Demais ou de mais
Demais é advérbio de intensidade («Gostei demais», mais coloquial) ou pronome («os demais alunos», isto é, os restantes). De mais opõe-se a «de menos»: «Disse coisas de mais.» Teste: se pode trocar por «de menos», escreve-se separado.
Senão ou se não
Senão é «caso contrário» ou «exceto»: «Despache-se, senão perde o comboio.» Se não é a condição «se» mais a negação: «Se não chover, vamos à praia.»
A fim de ou afim
A fim de indica finalidade: «Estudei a fim de passar a exame.» Afim é um adjetivo que significa semelhante ou parente: «interesses afins».
Onde ou aonde
Onde indica lugar em que se está: «Onde moras?» Aonde indica destino, com movimento: «Aonde vais?» Na escrita cuidada em Portugal, distingue-se ainda a diferença, embora no dia a dia muita gente use apenas «onde».
Confusões típicas de Portugal (AO90 e português do Brasil)
Muitas dúvidas nascem de ler muito texto brasileiro ou de ter aprendido a escrever antes do Acordo. A tabela mostra a forma de Portugal depois do Acordo.
| Forma a evitar | Forma de Portugal | Entrada |
|---|---|---|
| fato (com o sentido de «acontecimento») | facto | facto ou fato |
| contato | contacto | contacto ou contato |
| recepção | receção | receção ou recepção |
| acção, directo, actual, óptimo | ação, direto, atual, ótimo | ação, direto, atual, ótimo |
| pára-quedas | paraquedas | paraquedas |
| hás-de | hás de | hás de |
Em Portugal, «fato» existe, mas significa roupa (um fato completo, o fato de treino). Para o conjunto de diferenças entre as duas normas, leia Português de Portugal e do Brasil e o guia do Acordo Ortográfico.
Frases para corrigir: antes e depois
| Antes | Depois | O que mudou |
|---|---|---|
| «Houveram muitos erros no teste.» | «Houve muitos erros no teste.» | haver impessoal, singular |
| «Falei com ela à bocado.» | «Falei com ela há bocado.» | verbo haver, tempo decorrido |
| «O concelho do professor foi útil.» | «O conselho do professor foi útil.» | aviso, não município |
| «Chego daqui há cinco minutos.» | «Chego daqui a cinco minutos.» | futuro leva «a» |
| «Os alunos vem às oito.» | «Os alunos vêm às oito.» | plural com circunflexo |
| «Concerteza que vou.» | «Com certeza que vou.» | duas palavras |
| «Pediu-me muita descrição no relatório.» (querendo dizer reserva) | «Pediu-me muita discrição no relatório.» | reserva é discrição |
| «Foi um mal aluno.» | «Foi um mau aluno.» | adjetivo, oposto de «bom» |
Repare que em cinco destas frases um corretor automático não vê erro nenhum: todas as palavras existem. É por isso que o hábito de reler com o teste de substituição vale mais do que qualquer lista.
Como não cair nas confusões: método em quatro passos
- Pare e pergunte pela função. É verbo, nome, adjetivo ou preposição?
- Faça o teste de substituição. «Existe/faz», «ao», «extensão», «bem/bom».
- Leia a frase em voz alta. Os pares que soam igual (cozer/coser) só se distinguem pelo sentido.
- Confirme no dicionário quando a dúvida persistir: o Priberam e o Vocabulário Ortográfico do Portal da Língua Portuguesa são as consultas habituais.
Depois de escrever, passe o texto pelo Corretor ortográfico (AO90), que sinaliza grafias anteriores ao Acordo e formas do Brasil. Atenção: um corretor automático só vê palavras que existem; «à bocado» ou «houveram» podem escapar-lhe, por serem palavras corretas na forma. O Corretor gramatical ajuda com concordância, mas a decisão final é sua. Para confirmar uma palavra isolada, use o Como se escreve?.
Quiz: escolha a palavra certa
- Cheguei (há / à / a) dez minutos.
- Ontem (houve / ouve) uma reunião na junta de freguesia.
- Ele (houve / ouve) rádio todas as manhãs.
- Pediram-me uma (descrição / discrição) do local.
- O (cumprimento / comprimento) da lei é obrigatório.
- Vive no (concelho / conselho) de Cascais.
- A avó vai (coser / cozer) a bainha das calças.
- Voltamos (daqui a / daqui há) uma semana.
- Fui (à / há) praia de manhã.
- Os alunos (tem / têm) prova amanhã.
Soluções:
- Há (= faz dez minutos).
- Houve (haver, impessoal: aconteceu).
- Ouve (ouvir).
- Descrição (descrever); discrição seria a reserva de quem é discreto.
- Cumprimento (cumprir).
- Concelho (município).
- Coser (costurar).
- Daqui a (futuro).
- À (a + a; troca-se por «ao»: fui ao museu).
- Têm (plural, com circunflexo).
Lista rápida para guardar
- Há: troque por «existe» ou «faz».
- À: troque por «ao».
- Houve / ouve: haver (acontecer) / ouvir (escutar).
- Concelho / conselho: município / aviso.
- Sessão / secção / cessão: reunião / divisão / ceder.
- Mal / mau: bem / bom.
- Têm / vêm: plural, com circunflexo.
- Com certeza: duas palavras.
- Houve: nunca «houveram» (impessoal).
Guarde esta lista junto ao computador antes de uma entrega. Em trabalhos de faculdade, relatórios ou mensagens profissionais, a ortografia cuidada passa a imagem de rigor, mesmo quando o conteúdo é o mesmo. Se lhe interessam os recursos de escrita, leia também Figuras de estilo e Como fazer uma introdução.
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Perguntas frequentes
Como sei se escrevo «há» ou «à»?
Troque pela palavra «existe» ou «faz»: se a frase continuar a fazer sentido, escreva «há» (verbo haver). Se puder trocar por «ao», escreva «à» (a + a). Exemplo: em «Há dois anos que não vou à praia», «há» troca-se por «faz» e «à» por «ao».
Posso dizer «houveram problemas»?
Não. Com o sentido de existir ou acontecer, o verbo haver é impessoal e fica no singular: «houve problemas», «havia problemas», «vai haver problemas». O plural «houveram» só existe noutros usos do verbo, como «haver por bem», raros e literários, que não convêm na escrita escolar.
Qual a diferença entre concelho e conselho?
«Concelho» é um município, divisão administrativa do território, como o concelho de Sintra. «Conselho» é um aviso ou um órgão colegial, como um bom conselho ou o Conselho de Ministros. Troque por «município» ou por «aviso» para decidir.
O corretor ortográfico apanha todas estas confusões?
Não todas. Um corretor automático assinala palavras inexistentes e grafias antigas, mas aceita palavras corretas usadas no sítio errado, como «cozer» no lugar de «coser». Por isso, releia o texto e use o dicionário, como o Priberam, quando tiver dúvidas.
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