Ortografia e gramática

Português de Portugal e do Brasil: o que muda na escrita

Equipa Editorial do AdeptWriteAtualizado 8 min de leitura

O Acordo Ortográfico de 1990 aproximou as duas ortografias, mas não as igualou. Em Portugal continua a escrever-se facto, contacto e receção, e acentua-se académico e António; o vocabulário (autocarro, telemóvel, ficheiro) e a gramática (estou a fazer, diz-me, o meu livro) também diferem. Ambas as variantes estão certas no seu país; num texto para Portugal, use as formas portuguesas.

Resposta curta

Português europeu e português brasileiro são a mesma língua com duas normas de escrita. Desde o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), ambas eliminaram muitas consoantes mudas e simplificaram o hífen, por isso hoje se escreve ação, ótimo e direto nos dois países. Mas o Acordo não uniformizou tudo: em Portugal mantêm-se consoantes que se pronunciam (facto, contacto), alguns acentos são diferentes (académico / acadêmico), o vocabulário do dia a dia muda (autocarro / ônibus) e a gramática também (estou a fazer / estou fazendo).

Nenhuma das duas formas é «mais correta». Cada uma é correta no seu país. A regra prática é simples: escreva na variante do leitor. Um trabalho para uma universidade portuguesa, um requerimento a uma câmara municipal ou uma candidatura a uma empresa em Lisboa ou no Porto devem estar em português europeu; um texto para o Brasil, em português brasileiro. Este guia mostra as diferenças que mais aparecem, com exemplos antes e depois e uma lista de verificação.

O que o AO90 uniformizou e o que não uniformizou

O Acordo Ortográfico de 1990 foi negociado entre os países de língua portuguesa para reduzir diferenças ortográficas. Em Portugal, o período de transição decorreu entre 2009 e 2015 e, desde então, a norma é a do Acordo (a aplicação no ensino e nos serviços do Estado começou antes, por decisão do Governo; as datas exatas estão no guia Acordo Ortográfico (AO90)). O Acordo continua a ser discutido, mas é a ortografia oficial usada nas escolas, na administração pública e nos dicionários de referência.

O que ficou igual nos dois países depois do Acordo:

  • consoantes mudas que não se pronunciam em nenhum dos dois lados: ação, atual, ótimo, direto, objetivo, adotar;
  • minúsculas nos meses, estações do ano e dias da semana (novembro, primavera, segunda-feira);
  • hífen em palavras como autoestima, extraescolar ou aeroespacial (juntas, sem hífen);
  • o alfabeto de 26 letras, com k, w e y.

O que continua diferente:

  • consoantes que se pronunciam num país e não no outro (facto / fato, receção / recepção);
  • acentos gráficos de vogais abertas e fechadas (económico / econômico);
  • palavras diferentes para a mesma coisa;
  • construções gramaticais e colocação dos pronomes;
  • formas de tratamento (tu, você, o senhor).

Consoantes: o que se pronuncia em Portugal fica escrito

O princípio do Acordo é que a consoante só se escreve quando se pronuncia. Como em Portugal e no Brasil a pronúncia de algumas palavras difere, a escrita também difere.

Português europeuPortuguês brasileiroObservação
factofatoEm Portugal, fato é uma peça de roupa (fato de treino).
contactocontatoPronuncia-se o c em Portugal.
receçãorecepçãoO p mudo caiu em Portugal.
perceçãopercepçãoMesmo princípio de receção.
aspetoaspectoNa norma portuguesa registada nos dicionários atuais.
espetadorespectadorIdem.
excetoexcetoIgual nos dois países.
açãoaçãoIgual nos dois países (antes do Acordo: acção).

No Dicionário Priberam, a entrada facto mostra a forma europeia; o Portal da Língua Portuguesa (Vocabulário Ortográfico do Português, VOP) é a referência oficial para confirmar uma grafia. Se tiver dúvidas sobre um par, consulte também as páginas de dúvidas ortográficas: facto ou fato, contacto ou contato e receção ou recepção.

Acentos: académico, António, bebé

Em Portugal, vogais tónicas como e e o antes de m ou n levam muitas vezes acento agudo (vogal aberta), no Brasil circunflexo (vogal fechada). O Acordo manteve estas duas grafias.

Português europeuPortuguês brasileiro
académicoacadêmico
económicoeconômico
AntónioAntônio
génerogênero
bebébebê
ténistênis
fenómenofenômeno

Para quem escreve a partir do Brasil ou com teclados e corretores em português do Brasil, este é o erro mais frequente em textos para Portugal: o corretor «corrige» académico para acadêmico. O contrário também acontece: um corretor europeu assinala acadêmico num trabalho escrito no Brasil.

Vocabulário: palavras diferentes para a mesma coisa

As diferenças de vocabulário não são erros de ortografia, mas fazem o texto soar «de fora». Em candidaturas, ofícios e trabalhos académicos, o leitor português estranha as formas brasileiras.

Português europeuPortuguês brasileiro
autocarroônibus
comboiotrem
telemóvelcelular
utilizadorusuário
ficheiroarquivo
ecrãtela
rato (do computador)mouse
casa de banhobanheiro
pequeno-almoçocafé da manhã
equipaequipe
frigoríficogeladeira
passadeirafaixa de pedestres
transferir (um ficheiro)baixar (um arquivo)
partilharcompartilhar
registoregistro
fato (roupa)terno
camisolacamiseta

Há ainda casos de palavras iguais com sentidos diferentes. Fato em Portugal é roupa; no Brasil, é o equivalente a facto. Convém ter isto presente ao ler um texto brasileiro e ao escrever para um leitor português.

Gramática: estar a fazer, diz-me, o meu livro

Gerúndio e «estar a + infinitivo»

Em Portugal, a ação em curso exprime-se normalmente com estar a + infinitivo; no Brasil, com o gerúndio.

  • Portugal: Estou a escrever o relatório de estágio.
  • Brasil: Estou escrevendo o relatório de estágio.

Pronomes átonos

Em Portugal, o pronome coloca-se depois do verbo (ênclise) em frases afirmativas simples; no Brasil é comum colocá-lo antes.

  • Portugal: Diz-me quando chegares. / Enviei-lhe o ficheiro.
  • Brasil: Me diz quando você chegar. / Enviei o arquivo pra ele.

Em Portugal, depois de palavras negativas ou de certos advérbios, o pronome vem antes do verbo (próclise): Não me disseram nada.

Artigo antes do possessivo

  • Portugal: o meu orientador, a minha tese.
  • Brasil: meu orientador, minha tese.

Tu, você e formas de tratamento

Em Portugal usa-se tu entre amigos, colegas próximos e família; em contextos formais evita-se o pronome você e prefere-se tratar a pessoa pelo nome, pelo título ou por o senhor / a senhora: A Dra. Marta Silva pode enviar-me o relatório? O verbo na terceira pessoa sem sujeito explícito é um traço do registo formal português: Agradeço desde já a sua atenção. No Brasil, você é o tratamento corrente na maior parte do país.

Outras pequenas diferenças

  • Datas: 1 de novembro de 2026 ou 01/11/2026 (dia, mês, ano) em Portugal. Evite a ordem mês/dia.
  • Números: vírgula decimal e espaço (ou ponto) nos milhares: 1 234,56 €.
  • Moeda: o euro, em geral depois do número (25 €), em vez de R$ 25.
  • Aspas: em Portugal usam-se com frequência as aspas angulares «assim»; no Brasil, as inglesas “assim”.

Antes e depois: o mesmo texto em duas normas

Brasileiro, num e-mail para uma empresa em Portugal:

Olá! Estou enviando meu currículo e o arquivo com o contato do meu orientador. Fico no aguardo de uma resposta e já agradeço pela atenção.

Português europeu:

Bom dia. Envio o meu currículo e o ficheiro com o contacto do meu orientador. Fico a aguardar resposta e agradeço desde já a atenção.

Brasileiro, num trabalho académico:

O usuário acessa o aplicativo no celular e baixa o arquivo.

Português europeu:

O utilizador acede à aplicação no telemóvel e transfere o ficheiro.

Repare que não há erro de ortografia na primeira versão, mas há um conjunto de marcas que o leitor português identifica de imediato. Para uma candidatura, uma tese, um relatório de estágio ou um requerimento a um serviço público, estas marcas pesam mais do que parecem.

Onde isto importa mais em Portugal

  • Universidades e politécnicos: trabalhos, dissertações e teses escrevem-se em português europeu com AO90; as normas de citação mais usadas incluem a NP 405, o APA e o Harvard, consoante a instituição e o orientador. Confirme o que a sua faculdade exige.
  • Administração pública: requerimentos, ofícios e comunicações ao Estado seguem a ortografia oficial.
  • Candidaturas a emprego: a carta de motivação e o currículo devem estar na variante do recrutador. Veja também Como fazer uma carta de motivação.
  • Sítios web, aplicações e comunicação com clientes: utilizador, ficheiro, transferir e partilhar são as palavras esperadas em interfaces para Portugal.

Como o corretor ortográfico ajuda

O Corretor ortográfico (AO90) do AdeptWrite funciona no seu navegador e assinala gralhas, grafias anteriores ao Acordo (acção, óptimo, directo) e formas do português do Brasil (como contato, recepção ou fato no sentido de «facto»). Cada alerta traz uma sugestão, que pode aceitar ou ignorar. Um exemplo:

Texto originalSugestão
O contato foi feito na recepção.contacto; receção
A ação é direta.(sem alteração: já está conforme o AO90)
Foi um fato curioso.facto (se o sentido for «acontecimento»)

O corretor não substitui a leitura atenta: não distingue sempre se fato significa «roupa» ou «acontecimento», e não corrige o vocabulário ou a gramática do português brasileiro de forma sistemática. Para confirmar uma palavra concreta, use o verificador Como se escreve?, que consulta o dicionário do português europeu (AO90) e dá sugestões. Para concordância, pontuação e construções, passe depois o texto pelo Corretor gramatical.

Lista de verificação antes de entregar um texto para Portugal

  1. As palavras do quotidiano estão na forma europeia (utilizador, ficheiro, telemóvel, autocarro)?
  2. Escreveu facto, contacto e receção, e não fato, contato e recepção?
  3. Os acentos estão na norma portuguesa (académico, económico, António)?
  4. Usou estar a + infinitivo em vez do gerúndio?
  5. Os pronomes seguem a norma europeia (diz-me, enviei-lhe)?
  6. Há artigo antes do possessivo (o meu, a minha)?
  7. O tratamento está adequado ao contexto (tu só em contextos informais)?
  8. Datas, números e moeda seguem o formato português?
  9. Não ficaram formas anteriores ao Acordo (acção, óptimo, directo)?
  10. Passou o texto pelo corretor e leu-o em voz alta, no fim?

Erros comuns

  • Misturar as duas normas no mesmo texto: utilizador e contato na mesma página.
  • Aceitar sem pensar as sugestões de um corretor configurado para o Brasil.
  • Confundir «fato» e «facto»: em Portugal são palavras diferentes.
  • Usar o gerúndio em todos os casos de ação em curso.
  • **Escrever você num e-mail formal** a um professor ou a uma entidade em Portugal.
  • Acreditar que o AO90 igualou tudo: igualou muito, mas não tudo.

Quando a variante brasileira é a certa

Se o seu leitor é brasileiro (um cliente no Rio, uma plataforma de ensino em São Paulo, uma editora brasileira), escreva em português do Brasil. Não há «mais correto». Se escreve para os dois mercados, produza duas versões em vez de uma versão intermédia: o resultado costuma agradar a ninguém. Se partir de um texto brasileiro, adapte-o com cuidado: troque o vocabulário, as consoantes, os acentos, os pronomes e o tratamento, e releia no fim.

Para continuar, veja o guia sobre o Acordo Ortográfico (AO90) e o das palavras que se confundem.

Experimente as ferramentas

Corretor ortográfico (AO90)
Encontre palavras fora do dicionário pt_PT (Natura), grafias anteriores ao Acordo Ortográfico e formas do Brasil, no seu navegador.
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Como se escreve? Verificador de palavras (AO90)
Confirme se uma palavra está na lista ortográfica pt_PT (Natura, AO90), com sugestões e, quando existir, definição.
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Perguntas frequentes

O português de Portugal e o do Brasil são línguas diferentes?

Não. São duas variedades da mesma língua, com normas de escrita muito próximas depois do Acordo Ortográfico de 1990, mas que continuam a diferir em consoantes, acentos, vocabulário e gramática. Cada uma é correta no seu país.

O Acordo Ortográfico acabou com as diferenças de escrita?

Reduziu-as, mas não as eliminou. Em Portugal mantêm-se, por exemplo, facto, contacto e receção, enquanto no Brasil se escreve fato, contato e recepção. Também continuam diferentes acentos como académico e acadêmico, além do vocabulário e da gramática.

Posso entregar um trabalho em português do Brasil numa universidade portuguesa?

Em geral, os trabalhos escrevem-se em português europeu, e as formas brasileiras são vistas como desvios. As regras variam por instituição e por orientador, por isso confirme com o seu. Mesmo que seja aceite, o texto fica mais coerente na norma portuguesa.

O corretor ortográfico deteta o português do Brasil?

O Corretor ortográfico (AO90) do AdeptWrite assinala várias formas brasileiras e grafias anteriores ao Acordo, com sugestões. Não substitui a leitura: há palavras como fato que dependem do sentido, e a gramática e o vocabulário também merecem revisão.

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