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Figuras de estilo: lista com exemplos, valor expressivo e quiz

Equipa Editorial do AdeptWriteAtualizado 10 min de leitura

As figuras de estilo (ou recursos expressivos) são formas de usar a língua fora do sentido literal ou da ordem habitual para tornar o texto mais vivo, enérgico ou claro. Dividem-se em comparação (comparação, metáfora), som (aliteração, onomatopeia), ênfase (hipérbole, anáfora, gradação) e contraste (antítese, oxímoro, ironia). Num teste, nomeie a figura, cite o exemplo e explique o efeito.

Resposta curta

Uma figura de estilo é um modo de usar as palavras que se afasta do sentido literal, da construção habitual ou da sonoridade comum, para tornar a expressão mais viva, mais enérgica ou mais compreensível. O Dicionário Priberam trata «figura de estilo» como sinónimo de «figura de retórica». Na escola portuguesa fala-se também em recursos expressivos; no Brasil, o termo corrente é «figuras de linguagem».

Em testes e exames de Português, não basta nomear a figura. A resposta completa tem três partes: 1) o nome da figura, 2) a citação do verso ou da frase onde aparece, 3) o valor expressivo, isto é, o efeito que cria no leitor. Este guia agrupa as figuras mais pedidas em quatro famílias, dá um exemplo de cada, compara as mais confundidas e termina com um pequeno quiz com soluções.

Como identificar e explicar uma figura de estilo

  1. Leia a frase em sentido literal. Se o sentido literal não faz sentido (ou é estranho), há provavelmente uma figura.
  2. Pergunte o que mudou: o sentido (metáfora), a ordem das palavras (hipérbato), o som (aliteração), a quantidade (hipérbole) ou a oposição de ideias (antítese)?
  3. Cite o excerto exato que mostra a figura.
  4. Explique o efeito: dá força? cria uma imagem? exprime emoção? sugere ritmo? ridiculariza?

Evite frases vazias como «a figura embeleza o texto». Diga o que ela faz neste texto. Exemplo de resposta: «No verso "Amor é fogo que arde sem se ver", Camões recorre a uma metáfora que identifica o amor com o fogo, sugerindo um sentimento intenso e que consome o sujeito sem que se veja por fora.»

1. Figuras de comparação e substituição

Aproximam ou substituem ideias.

Comparação. Liga dois elementos por um conector (como, tal como, que nem, parecido com). Exemplo: «Morder como quem beija» (Florbela Espanca, «Ser poeta»): o verbo morder aproxima-se do beijo através de «como quem». Valor expressivo: torna o gesto intenso e sensual, e a comparação ajuda a perceber o contraste entre agressão e carícia.

Metáfora. Identifica dois elementos sem conector. Exemplo: «Amor é fogo que arde sem se ver» (Camões). Valor expressivo: cria uma imagem forte, com carga emocional, em vez de explicar a ideia.

Personificação (prosopopeia). Dá características humanas a seres não humanos. Exemplo: «Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!» (Pessoa, Mensagem): o mar é interpelado e chora. Valor expressivo: une a natureza ao sofrimento coletivo.

Metonímia. Troca uma palavra por outra com relação de proximidade (autor pela obra, continente pelo conteúdo, parte pelo todo). Exemplo: «Li Camões no verão» (a obra, não o homem); «bebeu um copo». Valor expressivo: concisão e naturalidade.

Perífrase. Substitui um nome por uma expressão que o descreve. Exemplo: «a cidade das sete colinas» (Lisboa). Valor expressivo: evita repetições e dá um tom mais solene ou literário.

Sinestesia. Mistura sensações de sentidos diferentes. Exemplo: «uma voz doce», «um silêncio frio», «cores quentes». Valor expressivo: torna a perceção mais rica e sugestiva.

Eufemismo. Suaviza algo desagradável. Exemplo: «Ele partiu» em vez de «morreu». Valor expressivo: delicadeza, respeito ou fuga ao tabu.

2. Figuras de som e de construção

Jogam com a sonoridade e a organização da frase.

Aliteração. Repetição de sons consonânticos. Exemplo popular: «O rato roeu a roupa do rei de Roma», com o som «r» repetido. Valor expressivo: cria ritmo e pode imitar um som ou um estado de espírito.

Assonância. Repetição de sons vocálicos. Exemplo: «Sou um sonhador sem pudor» (repetição do som «o»). Valor expressivo: musicalidade.

Onomatopeia. Palavra que imita um som. Exemplo: «o tic-tac do relógio», «o zumbido da abelha». Valor expressivo: aproxima o leitor da cena sonora.

Anáfora. Repetição de uma palavra ou expressão no início de versos ou frases. Exemplo: «Há tal soturnidade, há tal melancolia» (Cesário Verde, «O Sentimento dum Ocidental»). Valor expressivo: insiste na ideia e cria ritmo.

Hipérbato (inversão). Altera a ordem normal das palavras. Exemplo: «De grande valor é a amizade», em vez de «A amizade é de grande valor». Valor expressivo: destaca o termo deslocado e dá um tom literário.

Elipse. Omite um termo que se subentende. Exemplo: «Eu li o livro; ela, a revista» (omite-se «leu»). Valor expressivo: concisão e dinamismo.

Pleonasmo. Repete uma ideia já contida na expressão. Exemplo: «Vi com os meus próprios olhos». Valor expressivo: reforça a ideia (usado sem intenção, é um vício de linguagem, como em «subir para cima»).

Assíndeto e polissíndeto. O assíndeto omite conjunções: «Vim, vi, venci» (a frase atribuída a Júlio César, em tradução). O polissíndeto repete-as: «E chorou, e riu, e cantou». Valor expressivo: o primeiro dá rapidez; o segundo dá lentidão, acumulação ou emoção.

3. Figuras de ênfase e de intensificação

Hipérbole. Exagero intencional. Exemplo: «Já te disse mil vezes!» Valor expressivo: intensifica a emoção ou o humor.

Gradação. Sequência de termos por ordem crescente (clímax) ou decrescente (anticlímax). Exemplo: «Chamei-o, gritei-lhe, berrei-lhe.» Valor expressivo: aumento progressivo de tensão.

Enumeração. Lista de elementos. Exemplo: «as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia» (Cesário Verde). Valor expressivo: dá a ver um cenário por acumulação de pormenores.

Apóstrofe. Interpelação direta a alguém ou a algo (presente ou ausente). Exemplo: «Ó mar salgado…» (Pessoa). Valor expressivo: intensifica o tom emotivo e cria proximidade.

Interrogação retórica. Pergunta sem expectativa de resposta. Exemplo: «Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena» (Pessoa, «Mar Português»). Valor expressivo: leva o leitor a concordar com a resposta que o poeta já deu.

Repetição. Retoma palavras para marcar a ideia. Exemplo: «Ser poeta é ser mais alto, é ser maior» (Florbela Espanca), onde se repete «é ser». Valor expressivo: ênfase e ritmo.

4. Figuras de contraste

Antítese. Opõe ideias ou palavras de sentido contrário. Exemplo: «Quem muito promete, pouco cumpre» (provérbio). Valor expressivo: sublinha o contraste entre duas realidades.

Oxímoro (paradoxo condensado). Junta termos contraditórios numa só expressão. Exemplo: «um contentamento descontente» (Camões). Valor expressivo: exprime a complexidade de sentimentos opostos que coexistem.

Paradoxo. Afirmação aparentemente absurda, mas com sentido profundo. Exemplo: «O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente» (Pessoa, «Autopsicografia»). Valor expressivo: obriga a refletir sobre a sinceridade na arte.

Ironia. Diz-se o contrário do que se quer dizer. Exemplo: «Que pontual! Só chegaste duas horas depois.» Valor expressivo: crítica ou humor, dependendo de a ironia ser reconhecida.

Litote. Afirma-se algo negando o contrário, para atenuar. Exemplo: «Não é nada mau» (querendo dizer «é bom»); «não foi um mau resultado». Valor expressivo: delicadeza, modéstia ou ironia suave.

Antonomásia. Substitui o nome próprio por uma qualidade ou título conhecido. Exemplo: «o Poeta» para designar Camões, «o Rei-Sol» para Luís XIV. Valor expressivo: engrandece a pessoa e evita a repetição do nome.

Sarcasmo. Ironia mordaz, que quer ferir. Exemplo: «Grande ideia, genial: agora estamos todos atrasados.» Valor expressivo: crítica dura. Distingue-se da ironia simples pela intenção de magoar.

Sentido literal e sentido figurado

Uma frase está em sentido literal quando as palavras significam o que o dicionário diz: «O Tejo desagua no Atlântico.» Está em sentido figurado quando o significado vai além das palavras: «O Tejo é um espelho de prata.» As figuras de estilo são a principal ferramenta do sentido figurado, mas há também expressões feitas que ninguém nota já como figuras: «dar com os burros na água», «ficar de queixo caído», «ter um nó na garganta». Os dicionários, como o Priberam, registam muitas delas, e são úteis para distinguir a expressão fixa da imagem criada pelo autor.

Exemplo trabalhado: de uma frase seca a uma frase com figura

Veja como uma ideia simples muda com recursos expressivos.

Frase literal: «Estava muito cansado depois do dia de trabalho.»

Com comparação: «Estava cansado como um cavalo depois de uma longa jornada.»

Com metáfora: «Era um farrapo ao fim do dia de trabalho.»

Com hipérbole: «Morria de cansaço depois do dia de trabalho.»

Com gradação: «Estava cansado, esgotado, desfeito.»

Cada versão diz a mesma coisa, mas com um efeito diferente: a comparação é clara e quase sempre segura; a metáfora é mais condensada; a hipérbole é coloquial e enfática; a gradação dá um ritmo crescente. Escolha em função do texto e do público, e não use todas ao mesmo tempo. Pode comparar versões com a ferramenta Mudar o tom do texto, que ajusta o registo de uma frase, mas a escolha da imagem deve ser sua.

Tabela: figuras que se confundem

ParDiferença principalExemplo
Comparação / metáforaA comparação usa «como»; a metáfora identifica diretamente«Era como um leão» / «Era um leão»
Metáfora / metonímiaA metáfora assenta em semelhança; a metonímia, em proximidade«Amor é fogo» / «Li Camões»
Antítese / oxímoroA antítese opõe dois termos em partes diferentes; o oxímoro junta-os numa expressão«Dia e noite» / «silêncio ensurdecedor»
Hipérbole / gradaçãoA hipérbole exagera; a gradação ordena termos por intensidade«Morri de vergonha» / «chamou, gritou, berrou»
Anáfora / repetiçãoA anáfora repete no início de versos ou frases; a repetição pode ocorrer em qualquer posição«Há tal… há tal…» / «é ser… é ser»
Aliteração / assonânciaA aliteração repete consoantes; a assonância, vogais«rato roeu a roupa» / «sonhador sem pudor»
Assíndeto / polissíndetoFalta ou excesso de conjunções«Vim, vi, venci» / «e chorou, e riu»

Figuras de estilo nos testes e nos exames

Nas provas de Português, a pergunta costuma ser do tipo «Explique o valor expressivo da [figura] no verso X». Siga este esquema:

  • Identifique: «Nos versos X, encontra-se uma metáfora…»
  • Cite: «…em "Amor é fogo que arde sem se ver"…»
  • Interprete: «…que associa o amor ao fogo, sugerindo a intensidade do sentimento e o seu carácter invisível.»
  • Relacione com o tema ou a emoção do texto.

Confirme a nomenclatura e as exigências com o seu professor e com os documentos oficiais da disciplina, porque os manuais e os programas podem usar designações ligeiramente diferentes. Para dúvidas de grafia nas suas respostas (por exemplo, «carácter», «hipérbato», «ação»), use o Corretor ortográfico (AO90) ou o Como se escreve?. Se quer ver como diferentes tons mudam uma frase, experimente o Mudar o tom do texto, e para praticar a escrita criativa pode inspirar-se no Gerador de poemas, que dá apenas um ponto de partida para você reescrever.

Como usar as figuras na sua própria escrita

  • Com moderação: uma imagem forte vale mais do que cinco gastas.
  • Evite clichés: «Branco como a neve» já não surpreende ninguém.
  • Coerência: não misture metáforas incompatíveis («abrir uma porta e tapar um buraco no mesmo passo»).
  • Adeque ao género: num relatório de trabalho, a clareza vale mais do que a ornamentação; numa crónica ou num discurso, as figuras ajudam a prender o leitor.

Quiz: identifique a figura

  1. «A cidade acordou devagar, bocejando entre os telhados.»
  2. «Já te pedi um milhão de vezes que baixasses a música!»
  3. «Era um silêncio ensurdecedor.»
  4. «Os Maias» e «Os Lusíadas» estão na estante; «li Pessoa» na semana passada.
  5. «Cheguei, olhei, pensei, saí.»
  6. «Ó vento, leva-me daqui!»

Soluções:

  1. Personificação: a cidade tem um comportamento humano (acordar, bocejar).
  2. Hipérbole: o exagero intensifica a irritação.
  3. Oxímoro: «silêncio» e «ensurdecedor» são termos contraditórios.
  4. Metonímia: «li Pessoa» designa a obra pelo autor.
  5. Assíndeto (com enumeração): faltam conjunções, o que dá rapidez.
  6. Apóstrofe: o vento é interpelado diretamente.

Erros frequentes

  • Dar só o nome da figura, sem citar nem explicar o efeito.
  • Confundir comparação com metáfora ou metáfora com metonímia.
  • Dizer que toda a repetição é anáfora.
  • Chamar «ironia» a qualquer situação desagradável.
  • Usar o mesmo valor expressivo («dá ênfase») para todas as figuras.
  • Esquecer que, no Brasil, o termo escolar é «figuras de linguagem», o que importa ao consultar materiais brasileiros: veja o guia Português de Portugal e do Brasil.

Experimente as ferramentas

Gerador de poemas
Poemas em verso livre, com rima, acrósticos ou haikus, a partir do seu tema e das suas palavras.
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Corretor ortográfico (AO90)
Encontre palavras fora do dicionário pt_PT (Natura), grafias anteriores ao Acordo Ortográfico e formas do Brasil, no seu navegador.
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Confirme se uma palavra está na lista ortográfica pt_PT (Natura, AO90), com sugestões e, quando existir, definição.
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Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre figuras de estilo e figuras de linguagem?

Na prática designam o mesmo conjunto de recursos. Em Portugal, o termo escolar mais comum é «figuras de estilo» ou «recursos expressivos»; no Brasil, é «figuras de linguagem». Os programas de cada país podem agrupar e classificar as figuras de maneira ligeiramente diferente.

Como explico o valor expressivo de uma figura de estilo?

Diga o efeito que a figura cria no texto: ênfase, imagem, emoção, ritmo, humor, crítica. Cite o excerto, nomeie a figura e relacione o efeito com o tema ou o sentimento do poema ou do texto. Evite respostas genéricas que serviriam para qualquer texto.

Qual é a diferença entre comparação e metáfora?

A comparação liga dois elementos através de um conector como «como» ou «tal como»: «Era como um leão». A metáfora identifica-os sem conector: «Era um leão». Em ambas há uma semelhança, mas na metáfora a ligação é mais condensada e mais forte.

Quantas figuras de estilo existem?

Não há um número oficial, porque as listas variam conforme os manuais e a classificação usada. Para testes e exames, o essencial é dominar as mais frequentes: comparação, metáfora, personificação, metonímia, hipérbole, anáfora, antítese, ironia e aliteração. Confirme com o seu professor.

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